Meu nome é Claire, e eu nasci humana. Normal. Com quatorze anos, descobri que não era bem assim. É a velha história: uma garota descobre que tem poderes, o destino muda, o mundo ganha uma nova heroína. Só que, comigo, o roteiro emperrou na parte da glória.
Eu posso fazer fogo sair da mão — e uso isso pra esquentar o café quando a máquina quebra. Posso alterar formas da matéria — o que significa que nunca mais paguei por conserto de zíper. Posso ler pensamentos — e não recomendo. Ninguém deveria saber o que as pessoas pensam quando dizem “você está ótima hoje”.
Com todos esses dons, eu não fiquei rica, não fiquei famosa e, definitivamente, não fiquei mais organizada. Eu continuo pagando boletos atrasados, continuo esquecendo mensagens, continuo passando quinze minutos decidindo o que jantar.
Eu podia, teoricamente, impedir um avião de cair do céu. Mas ainda não descobri como impedir meu cartão de crédito de cair no vermelho.
O problema é que o mundo não pede pra ser salvo. Ele só continua — e às vezes, tudo o que a gente pode fazer é continuar também. E talvez seja justamente por isso que eu ainda não desisti. Às vezes penso que comecei a tentar consertar o mundo no dia em que percebi que não podia consertar o que perdi. Não falo disso com ninguém — cada um tem sua forma de manter as coisas no lugar.
Acordei com o som insistente do alarme e a luz da janela me avisando que o dia já estava me julgando. O apartamento parecia ter acordado antes de mim. A chaleira fervia sozinha — truque que ensinei semana passada — e o relógio da parede piscava 8h04 com a mesma teimosia de sempre. Ele atrasa quando quer. A samambaia da janela, uma ex-espécie normal antes de eu mexer nela, cochichava “você devia lavar essa caneca”. Ignorei.
A cozinha é pequena, meio torta, e cheira a café requentado. O piso ainda tem uma rachadura que lembra um raio — um acidente de curiosidade mágica que nunca corrigi porque, de certo modo, combina comigo. No balcão, as contas empilhadas observam o caos com uma serenidade quase espiritual. Tenho a sensação de que, se um dia eu pagasse tudo, o Universo ficaria entediado.
Abri a geladeira. Uma garrafa de água, um pote de azeitonas e uma sensação geral de falência. Café puro virou café da manhã. É o que dá para chamar de consistência. Enquanto a cafeteira bufava, deixei o fogo correr entre os dedos. As chamas dançavam, pequenas, quase preguiçosas. Eram dóceis comigo.
— Pelo menos alguém me obedece — murmurei.
A chama respondeu com um estalo, o equivalente mágico de um “aham”.
Vesti o casaco cinza que já sobreviveu a três invernos e metade de um incêndio (longa história). No espelho, ajeitei o cabelo com um estalar de dedos. Reflexo obediente, mas mal-humorado. Peguei a mochila, chequei o saldo bancário, decidi não olhar de novo.
O prédio onde moro parece cansado, mas ainda acredita que é elegante. As paredes têm manchas que lembram mapas antigos, e o elevador faz discursos filosóficos antes de abrir. Não que ele fale — mas o som metálico é quase uma conversa. “Mais um dia, Claire?”, ele pergunta. E eu sempre penso: “Mais um, até que provem o contrário.”
A rua tem cheiro de chuva e de padaria que nunca abre no horário. O vento frio me lembra que eu deveria ter comprado luvas, mas mudo a textura do tecido do bolso e improviso um aquecimento. Truques pequenos pra disfarçar a realidade — meu verdadeiro talento.
Antes de você achar que eu sou uma dessas pessoas que vivem grandes aventuras mágicas: não. Eu tenho boletos, olheiras e uma lista de afazeres que inclui “ligar pro síndico” e “lembrar o nome do síndico”. Eu moro sozinha, trabalho em um escritório — nada heroico, com horários, reuniões e pilhas de papel que fingem ser importantes. Meu maior poder é parecer funcional em reuniões por vídeo.
Meu círculo social cabe em uma mesa de café. Literalmente. Somos quatro: eu, Natalie, Alex e Aly.
Conheço Natalie desde a adolescência. Somos da mesma ordem de mágicos, e todo ano participamos de um evento que é meio reunião, meio competição de egos arcanos. A diferença é que os poderes dela de transformação da matéria são muito mais fortes que os meus. Ela é arquiteta e usa isso com perfeição: finge que tem uma equipe inteira, mas se tranca sozinha num apartamento e, em um dia, transforma tudo — muda as cores, cria pisos, ajusta mesas em milímetros impossíveis. Sai de lá exausta e, cinco dias depois, o cliente acha que o milagre foi planejamento. Sonha em construir uma cidade inteira, e provavelmente conseguiria se achasse espaço suficiente. É metódica, organizada e não se envolve tanto com o mundo mágico quanto eu. Ainda assim, é uma das minhas maiores amigas. Já entramos em várias enrascadas juntas — como aquela vez em que unimos os poderes pra salvar uma biblioteca antiga de um desabamento, solidificando os pilares com energia e transformando o teto em um vidro luminoso que refletia constelações. Foi lindo e, claro, bastante perigoso.
Mas saiba que o mundo mágico a que me refiro não é igual ao dos filmes, com escola e tal. Aqui é cada um por si — um monte de gente poderosa vivendo vidas normais, tentando pagar as contas, mas capazes de fazer milagres. O lance é que poucos encontram um caminho e ficam ricos ou famosos; no geral, é só gente comum, que você nunca imaginaria que pode fazer coisas mágicas. Não existe livro de regras, nem presidente mandando na gente — no máximo, um tal de “Conselho de Anciãos”, que aparece pra dar palpite quando algo complicado acontece. Mas, só pra você ter uma ideia, um deles é encanador, outro é advogado e uma é professora de escola primária. Gente normal, só que com um toque de caos. É tudo meio de qualquer jeito. Você descobre outros seres mágicos por acaso, no meio da vida. Enfim, é só pra deixar claro que não é nenhuma sociedade mágica subterrânea.
Alex entrou na minha vida por acidente — literalmente. Ela invadiu meu apartamento, achando que estava perseguindo alguém. Três minutos de confronto, um sofá queimado e um pedido de desculpas depois, viramos amigas. Alex não é mágica. Diz que não precisa ser. Ela é, na verdade, uma espécie de mercenária: trabalha para gente rica que precisa recuperar um objeto, sair do país sem ser notada ou abrir o cofre do CEO do concorrente. Ninguém vê ela entrar, muito menos sair — e, quando percebem, o problema já foi resolvido. Já houve um mafioso que quis testar o serviço dela. Chamou Alex até sua mansão, um lugar cheio de câmeras e seguranças com olhar de pedra. Ela chegou pontualmente, mãos nos bolsos, olhar preguiçoso. O homem, pesado em ternos caros e desconfiança, falou sem rodeios:
— Tenho um envelope nesta gaveta. Você tem uma semana pra vir aqui e pegá-lo sem que eu perceba. Daqui a sete dias, destrancaremos a gaveta juntos. Se o envelope ainda estiver aqui, você perdeu.
Alex arqueou uma sobrancelha. — Uma semana? Vai ser entediante.
— É o tempo que você vai precisar — respondeu ele, batendo a mão na gaveta com um sorriso torto.
Ela deu de ombros, olhou em volta e avaliou o espaço ao redor, medindo distâncias, o brilho e os reflexos do vidro da janela. Depois, sorriu de leve — aquele sorriso de quem já decidiu vencer e só está sendo educada com o tempo.
Sete dias depois, ele a chamou de volta. Estava radiante, cercado de seguranças, pronto pra saborear a humilhação dela. Girou a chave, abriu a gaveta e congelou. O envelope não estava lá.
— Impossível! — gritou, arrancando as gavetas, revistando o chão. — Eu coloquei câmeras, eu não dormi!
Alex observava tranquila, com as mãos nos bolsos. O homem ainda bufava de raiva, sem entender nada, e deu a ela os parabéns e o trabalho.
Ela nunca contou a ele como fez. Mas eu sei. No dia em que ele propôs o desafio, ela saiu da casa e logo voltou pelo jardim. Entrou em silêncio, destrancou a gaveta e levou o envelope antes de toda a segurança ser instalada e os guardas discutirem turnos. Uma hora depois, o cliente achou que já estava vigiando o impossível, mas o impossível já tinha passado por lá.
Além de furtiva, é forte e rápida, de um jeito quase sobre-humano. Usa isso pra arrumar confusão: adora brigar na rua, como se estivesse sempre à procura de um bom motivo pra testar os reflexos. E, pra azar dos marmanjos que aceitam o desafio, ela nunca perde.
Aly, por outro lado, é o caos em movimento. Produtora de TV. Ela vive conectada, falando em três linhas de pensamento ao mesmo tempo, e ainda encontra tempo pra lembrar do meu aniversário. Se existisse um prêmio para quem consegue resolver o problema de todo mundo, ela o ganharia — e, depois, perderia um voo porque esqueceu a própria mala. De nós quatro, ela é a mais humana. E a mais perigosa, justamente por isso. Ela tem essa energia de quem nasceu com um pé no caos, mas jura que está no controle. Quando era adolescente, ela já organizava festivais da escola, vendia rifas, montava peças de teatro e ainda arrumava tempo pra tirar nota boa. Era praticamente uma locomotiva humana. Hoje, continua igual — só trocou a sala de aula por estúdios de TV. No ano passado, metade da equipe de um dos programas pirou de estresse, e a emissora largou tudo nas mãos dela. Aly segurou esse programa sozinha por semanas, dormindo duas horas por noite, comendo o que fosse possível. O programa foi ao ar, o público amou, e a rede de TV achou que ela era um gênio. E, junto com uma promoção de cargo, vieram mais responsabilidades — o castigo clássico de quem é competente demais. Ela riu, aceitou, e continuou girando pratos, sem deixar nenhum cair. Uma vez, ela me fez aparecer na TV, fingindo ser uma transeunte comum. Eu atravessei a rua na frente da câmera e ela jurou que era pra “dar naturalidade à cena”. Foi minha estreia e despedida no mundo da atuação. Eu deveria estar no cinema, de tão convincente que fui.
A gente tem a mania de resolver a vida num café. Sempre foi assim. E é pra lá que eu ia naquela manhã, tentando não pensar no saldo da minha conta bancária e nem no fato de que eu sonhei com chamas e vozes durante a noite. Sonhos não costumam ser literais, mas, no meu caso, às vezes são.
O ponto do ônibus fica na esquina de uma padaria que nunca abre no horário. Cheguei junto com o ônibus, que veio tossindo fumaça e resignação. Entrei e me segurei na barra metálica — grudenta. Um segundo depois, não estava mais. Pequenas trapaças matinais.
Eu queria sentar, então foquei num cara que, na minha opinião, não precisava estar sentado. Entrei na cabeça dele e fiz ele me ceder o lugar. Agradeci com um sorriso. Sentei. A janela estava embaçada, então ajustei a transparência do vidro pra clarear. Do lado de fora, prédios desiguais e árvores cansadas. Um bebê chorava no fundo; baixei o ruído ao redor dele. A mãe suspirou, achando que o choro tinha cessado sozinho.
O ônibus andava com aquele rangido que parece dor de garganta. As pessoas olhavam pro nada, pensando em contas, prazos, ex-namorados. É reconfortante perceber que, tendo superpoderes ou não, ninguém escapa do peso do cotidiano.
O café de sempre ficava na esquina de sempre. Pequeno, com cheiro de canela e nostalgia. O barista me chama de “Clarinha”, porque acha que combina comigo — e talvez combine mesmo, porque eu sempre chego com cara de quem precisa de diminutivo. As mesas são de madeira gasta, as cadeiras rangem quando querem ser ouvidas. Um quadro na parede muda de paisagem a cada estação, e nós quatro sempre apostamos qual vai ser a nova imagem. Dessa vez, era um cachorro com roupa de bombeiro.
Antes de empurrar a porta, travei o sino que ficava sobre ela por um instante — hábito antigo. Não gosto de anunciar minha chegada quando estou sozinha. Esse é o tipo de bobagem que eu faço pra me sentir no poder.
Aly já estava lá, é claro. Dois celulares, um laptop, um copo de café pela metade. Cabelo preso no estilo “controle aparente, caos subjacente”. Ela levantou o copo pra mim, sem desviar dos e-mails.
— Claire! — a voz dela sempre parece ligada direto na cafeína. — Você vai amar o caos de hoje.
— Se o caos não cai na nossa mesa, a mesa procura ele — respondi, tirando o casaco.
Ela assentiu com um leve sorriso.
— Diretor novo, produtor velho, pauta explosiva. O combo perfeito.
— E você? — perguntei.
— Eu sou o extintor.
Um barulho de alerta soou no laptop dela. Aly não piscou.
— E o extintor está pegando fogo.
A porta se abriu de novo. Alex entrou de lado, empurrando-a com o quadril, a mochila largada nas costas. Em silêncio, varreu o ambiente, calculando saídas, janelas, pessoas.
— Tô com fome, virei a noite trabalhando, ainda nem dormi — e essas são as roupas de ontem, antes que vocês reparem.
— Croissant duplo ou “vou fingir que sou saudável”? — perguntou Aly.
— Os dois. — Alex sentou, ajeitou o casaco, olhou pra mim. — Cabelo novo?
— Só cor nova. — a tonalidade mudava conforme a luz, e ela percebeu.
— Preto?
— Reflexivo.
— E reflete o quê?
— Verde, vermelho, amarelo... ele reflete meu humor. No caso, preto.
Alex piscou, entre a aprovação e o ceticismo.
Enquanto ela comia, notei o relógio da cafeteria parado. De leve, empurrei o tempo — e ele voltou a andar. O tic-tac voltou, tímido.
Cinco minutos depois, Natalie chegou. Sempre cinco — o tempo dela é uma piada interna. O cabelo preso num coque que despenca com dignidade; os olhos, medindo simetria até no ar. Me abraçou apertado.
Sentamos. Pedi um café que não precisasse de magia pra ficar quente — respeito o barista.
Aly começou:
— O diretor do programa surtou. Disse que “a realidade está sabotando o entretenimento”. Eu disse que isso se chama segunda-feira.
— Você ainda trabalha com aquele roteirista? — perguntou Natalie, mexendo no guardanapo.
— Aquele que escreve com o ego? Sim. — Aly bebeu o café e fez careta. — Frio.
Ela já estava lá, com aquele café esquecido na mesa havia tempo demais — não há milagre que o mantenha quente. Na verdade, há. Sem que ela pedisse, aumentei a temperatura da bebida. O vapor subiu. Ela sorriu, sem comentar.
Alex observava tudo em silêncio, mastigando como quem analisa um crime.
A conversa fluiu. Coisas pequenas, humanas: atrasos, clientes, o tempo. Eu deixava o barulho de fundo mais baixo, a luz do teto mais amena. A normalidade é uma invenção frágil, e eu a protejo como posso.
O barista passou com uma bandeja. Ajustei o equilíbrio sem que ele percebesse. A bandeja flutuou um segundo a mais do que deveria. Aly estava descrevendo um apresentador que trocava carisma por horas de sono. Natalie fez um cálculo mental de quanto custaria reformar o ego dele. Alex só balançou a cabeça, impassível.
Natalie ergueu os olhos do guardanapo.
— Hoje eu só queria paz, fazer o que tem que ser feito sem empecilhos nem surpresas e ir embora dormir.
Aly riu.
— Isso é o equivalente arquitetônico de “eu preciso de férias.”
— Férias são apenas um conceito — retruquei.
E, por alguns minutos, tudo estava no lugar.
Do lado de fora, o vento começou a soprar de forma irregular. Pelo reflexo da janela, vi uma sacola presa num redemoinho que não existia. Ninguém notou. O barista limpava o balcão com uma concentração que beirava um ritual. A colher dentro da xícara girava sozinha. Eu a fiz parar.
A conversa mudou para histórias antigas. Lembramos de quando nos conhecemos. Aly produzia um documentário sobre “fenômenos urbanos”; Natalie supervisionava uma obra que desafiava a física; Alex escoltava alguém que fingia ser ninguém, e eu… estava apenas no lugar certo, na hora certa.
O relógio voltou a parar. Dessa vez, deixei.
A porta se abriu. O sino tocou. Normal. Dois segundos depois, o sino tocou de novo — sozinho. O som reverberou no ar, como se tivesse lembrado de anunciar alguém atrasado.
Olhei por reflexo. Nada demais: gente entrando, gente saindo, uma criança mastigando um canudo, um casal discutindo sobre plantas.
Mas o ar… o ar ficou estranho. Denso, dobrado. A colher dentro da minha xícara vibrou, e o café formou um redemoinho pequeno. Uma lâmpada piscou. O quadro na parede trocou de paisagem — deserto por floresta.
Aly não percebeu. Alex franziu o cenho, alerta. Natalie riscou o guardanapo com força e o papel rasgou.
A sensação passou tão rápido que eu quase duvidei que tivesse acontecido.
Voltei pra mesa.
Pra minha gente.
Pra minha segunda-feira que parecia uma segunda-feira.
E, por enquanto, era.